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“Nós somos a voz deles”: conheça a mulher que protege os gorilas-das-montanhas em Uganda

Existem pouco mais de mil gorilas-das-montanhas vivendo em liberdade no mundo. Encontrados apenas em áreas protegidas de Uganda, Ruanda e República Democrática do Congo, os primatas passaram décadas ameaçados pela caça ilegal e pela perda de habitat. Hoje, graças a iniciativas de conservação, a espécie voltou a crescer, mas o acesso aos animais segue rigorosamente controlado, transformando o gorilla trekking em uma das experiências de vida selvagem mais exclusivas do planeta.

Como entusiasta da natureza, essa atividade estava na minha lista dos sonhos. E foi nas minhas férias, durante a minha expedição no Parque Nacional Impenetrável de Bwindi, em Uganda, que conheci Kiyai Jane, a mulher responsável por guiar meu grupo até uma família de gorilas-das-montanhas.

Depois de horas caminhando por trilhas íngremes, atravessando lama, vegetação fechada e encostas cobertas pela neblina característica da floresta, foi ela quem conduziu um dos encontros mais emocionantes da minha vida. Confesso que me surpreendi. Até aquele momento, eu não tinha encontrado nenhuma outra em uma função semelhante durante toda a viagem. À frente do grupo estava uma profissional que há quase oito anos trabalha como ranger da Uganda Wildlife Authority.

Durante a caminhada, Jane liderava o grupo com firmeza, mas também paciência e carinho. Era ela quem definia o ritmo da trilha, explicava as regras para a observação dos gorilas e coordenava a comunicação com os rastreadores que haviam partido horas antes para localizar a família que visitaríamos naquele dia. Natural de Soroti, cidade localizada no leste de Uganda, ela hoje vive em Kampala, a capital do país, mas passa grande parte da rotina profissional em Bwindi, no sudoeste ugandense, onde está concentrada cerca de metade da população mundial de gorilas-das-montanhas. Mais tarde, perguntei como havia chegado até aquela profissão. A resposta foi simples: paixão pela vida selvagem. “Eu sempre quis trabalhar com isso. Foi o meu interesse pelos animais que me trouxe para essa profissão”, contou.

Para se tornar ranger em Uganda, é preciso cumprir uma série de requisitos. Além da formação acadêmica mínima exigida pela Uganda Wildlife Authority, os candidatos passam por avaliações físicas e de saúde. “Você precisa estar fisicamente apta para trabalhar em áreas protegidas. Essa é uma das prioridades do trabalho”, explicou. A exigência faz sentido: a rotina inclui longas caminhadas por terrenos montanhosos, monitoramento da fauna e acompanhamento de visitantes em algumas das áreas mais remotas do país.

Embora hoje seja responsável por conduzir visitantes de diferentes partes do mundo até os gorilas-das-montanhas, Jane explica que a presença feminina na profissão ainda é reduzida. “Durante muito tempo, essa profissão era vista como um trabalho para homens. Só recentemente mais mulheres passaram a se interessar pela área”, afirmou. Segundo ela, as mulheres representam cerca de 20% dos profissionais que trabalham na Uganda Wildlife Authority, órgão responsável pela gestão dos parques nacionais e áreas protegidas do país.

A trajetória de Jane acompanha uma transformação que vem acontecendo lentamente em diferentes frentes da conservação ambiental na África. Em atividades que exigem resistência física e costumavam ser associadas ao universo masculino, cada vez mais mulheres ocupam funções de liderança, pesquisa e proteção da vida selvagem. Em Bwindi, onde vive cerca de metade da população mundial de gorilas-das-montanhas, elas também ajudam a garantir a sobrevivência de uma espécie que ainda depende de monitoramento constante.

Quando pergunto se sente orgulho do que faz, a resposta vem sem hesitação. “Tenho muito orgulho do meu trabalho. Sinto que sou uma guardiã dessa vida selvagem”, disse. Em seguida, resumiu a responsabilidade da função em uma frase que ficou comigo durante o restante da viagem: “Estamos trabalhando por algo que não pode falar por si. Nós somos a voz deles”.

A fala ganha ainda mais força quando se conhece a história dos gorilas-das-montanhas. Considerados uma das espécies mais raras do planeta, eles vivem exclusivamente nas florestas montanhosas da região dos Grandes Lagos africanos. Diferentemente de outros safáris, o encontro com esses animais exige planejamento prévio, permissões limitadas e o acompanhamento obrigatório de rangers treinados. Cada visita é cuidadosamente regulada para minimizar impactos sobre os grupos habituados à presença humana e contribuir para a preservação da espécie.

Ao final da entrevista, Jane aproveitou para fazer um convite a quem sonha conhecer Uganda. Conhecido como a “Pérola da África”, o país abriga não apenas gorilas-das-montanhas, mas também chimpanzés, leões que escalam árvores, florestas tropicais, lagos e uma rica diversidade cultural. “Há muito para aprender aqui, desde a cultura até a vida selvagem. As pessoas deveriam vir conhecer Uganda”, afirmou. Viajei até o país atraída pelos gorilas — experiência que organizei com a agência Nyumbu Beyond Journeys —, mas encontrei muito mais do que isso. As paisagens, a vida selvagem e a hospitalidade dos ugandenses transformaram a viagem em uma daquelas experiências que permanecem com você muito depois do retorno para casa.

Enquanto observava os gorilas descansando entre as árvores de Bwindi, pensei em como aquele encontro só era possível graças ao trabalho silencioso de profissionais como Jane. Em meio a uma floresta que parece saída de um filme, ela ajuda a proteger uma das espécies mais emblemáticas da vida selvagem africana e, ao mesmo tempo, abre caminho para que mais mulheres ocupem esses espaços.

Por Glamour / Um Só Planeta
Foto: Malu Pinheiro

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