Estudo estima perda de até 38% da Amazônia até o fim do século com desmatamento e crise climática

Um estudo da Universidade Ludwig Maximilian de Munique (LMU), publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), estima que a Amazônia pode perder até 38% de sua cobertura florestal até o fim do século XXI. A projeção considera a combinação entre mudanças no uso da terra e o aquecimento global, intensificado pela queima massiva de petróleo, gás e carvão.
Segundo os pesquisadores, 25% dessa perda estaria associada ao avanço do desmatamento para agricultura e pecuária, enquanto outros 13% decorreriam do aumento das temperaturas. A estimativa toma como referência a área de floresta existente em 1950.
Estimativas mais citadas sugerem que entre 10% e 20% da cobertura original da Amazônia já foi perdida desde meados do século XX, com grande parte dessa perda registrada a partir da década de 1980. O MapBiomas, por exemplo, estima que entre 1985 e 2021, de 44 a 74 milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos para uso humano na região, uma perda de 12% de floresta em 37 anos.
Maior floresta tropical do mundo, a Amazônia ocupa cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, abriga alta diversidade de espécies e comunidades indígenas e desempenha papel central na regulação do clima. O bioma armazena cerca de 10% do carbono presente nos ecossistemas terrestres e mantém seu próprio regime de chuvas ao reciclar a umidade vinda do oceano.
De acordo com a geógrafa Selma Bultan, autora principal do estudo, a novidade do estudo está em avaliar de forma integrada os efeitos do uso da terra e das mudanças climáticas.
Usando modelos do sistema terrestre com vegetação dinâmica — que simulam o crescimento, a mortalidade e a regeneração da floresta em resposta ao clima e ao uso da terra —, os pesquisadores analisaram o desmatamento na bacia amazônica entre 1950 e 2014 e projetaram a perda futura da floresta sob dois cenários climáticos distintos.
“Nossa análise mostra que até 38% da área florestal existente em 1950 pode ser perdida até o fim do século, sendo 25% atribuídos às mudanças no uso da terra e 13% ao aumento das temperaturas”, explica Bultan.
Os resultados também indicam que o risco de colapso abrupto da floresta aumenta de forma significativa quando o aquecimento global ultrapassa 2,3°C. Segundo os autores, as políticas e compromissos climáticos atuais colocam o planeta em uma trajetória de pelo menos 2,5°C de aquecimento médio.
Esse tipo de mudança poderia levar o sistema a um ponto de não retorno, um dos maiores riscos que a floresta enfrenta, com consequências mundiais, em que áreas de floresta densa se convertem rapidamente em paisagens abertas, semelhantes à savana.
Medidas de proteção à floresta, como acordos firmados na conferência do clima em Belém, a COP30, são um avanço, mas insuficientes diante da magnitude do risco, avaliam os pesquisadores. “Esses resultados [do estudo] apontam um risco significativo de uma transição em larga escala, com consequências potencialmente devastadoras para o sistema climático global, os ciclos regionais da água e do carbono, os meios de subsistência humanos e a biodiversidade. A redução desse risco exige proteção rigorosa das florestas e mitigação das mudanças climáticas em consonância com o Acordo de Paris”, cravam.
Por Um Só Planeta






0 Comentários