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Peixes mais consumidos no Amapá estão contaminados por mercúrio

Um estudo realizado no Amapá sugere que os hábitos alimentares das populações locais, que incluem a preferência por peixes carnívoros, está agravando a contaminação pelo mercúrio usado na mineração artesanal de ouro em pequena escala. 

Todos os peixes analisados na pesquisa apresentaram níveis detectáveis ​​de mercúrio e 28,7% excederam o limiar de mercúrio da Organização Mundial da Saúde para consumo humano.

Porém, quatro das sete espécies com as maiores concentrações de mercúrio estão entre as mais consumidas na região: o nível mais alto foi detectado no pirapucu, tucunaré etraírão – todas carnívoras. Como predadores, os peixes carnívoros acumulam grandes quantidades de mercúrio ao longo de seu ciclo de vida. 

A concentração de mercúrio nos peixes coletados excedeu o limite de segurança em 77,6% dos carnívoros, 20% dos onívoros e 2,4% dos herbívoros.

O estudo mostrou que os peixes da zona interior apresentaram níveis mais altos de mercúrio em comparação com os peixes da zona costeira.

Os pesquisadores recolheram 428 peixes de 18 locais diferentes.
Os peixes foram capturados por pescadores locais contratados para o estudo.
Foto: Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena

Realizado por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), do WWF-Brasil, do IEPA – Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá e do Iepé -Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, o estudo foi publicado na Revista Internacional de Pesquisa Ambiental e Saúde Pública.

Os resultados sugerem que a preferência local por espécies de peixes carnívoros apresenta um sério risco à saúde.

Recomendações

Este é o primeiro estudo com recomendações claras para reduzir a exposição ao mercúrio através do consumo de peixe no Estado do Amapá. A proposta dos pesquisadores é que o consumo das espécies de peixes carnívoros não exceda 200 gramas por semana, com atenção especial ao consumo de mandubé, pirapucu, tucunaré e trairão, que devem ser ingeridos uma vez por mês.

A pesquisadora Sandra Hacon, da Ensp/Fiocruz, destaca três vertentes do estudo. “Além de orientar a população a não ultrapassar o consumo semanal de 200 gramas dos peixes carnívoros, estimulamos a ingestão de outras espécies e alimentos, já que a biodiversidade da região é fantástica. O estudo também alerta para a destruição provocada pelo garimpo e recomenda que o poder público assuma a responsabilidade de garantir a segurança alimentar das populações locais.”

Para recolher as amostras de peixe, a equipe viajou por rios de difícil acesso, como trechos do Oiapoque e do Araguari. Foto: Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena

Garimpo: ameaça à saúde e ao meio ambiente

“O estudo traz dados contundentes sobre o nível de destruição que o garimpo do ouro está promovendo na Amazônia. Já tínhamos noção do quanto o garimpo destrói a floresta. Agora, temos mais evidências do quanto ele também destrói a saúde das pessoas que vivem na floresta. Consumidores de ouro em todo o mundo precisam entender que estão adquirindo um metal que está ameaçando a vida de pessoas inocentes. O poder público precisa urgentemente assumir sua responsabilidade de garantir segurança alimentar para as populações locais, que tradicionalmente dependem dos peixes como principal fonte de proteína”, afirma Marcelo Oliveira, especialista de Conservação do WWF-Brasil.

A mineração artesanal de ouro em pequena escala, geralmente organizada em redes ilegais e conduzida por garimpeiros e atravessadores, é a principal fonte de emissões, contaminação e consumo de mercúrio na América Latina e no Caribe. No norte da Amazônia brasileira, contaminou o meio ambiente e as pessoas ao longo do século passado.

Garimpo no Pará.

Tais atividades se expandiram significativamente na Amazônia nas últimas duas décadas, consolidando-se como uma das principais causas de desmatamento e degradação de habitats no norte da Amazônia brasileira, particularmente nas fronteiras entre Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela e os estados brasileiros de Roraima, Amapá e Pará. Também conhecida como Ecorregião do Escudo da Guiana, ela abrange 250 milhões de hectares e contém um dos maiores complexos de florestas tropicais primárias ininterruptas da Terra.

Essa situação foi exacerbada pelo aumento global do preço do ouro, que impulsionou a expansão das atividades ilegais na Amazônia e ameaça ainda mais o meio ambiente e os direitos humanos das comunidades locais. 

Povos ameaçados


Tucunaré coletado durante a pesquisa: peixes carnívoros,
no topo da cadeia, são os que acumulam maior concentração de mercúrio.
Foto: Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena

É esse tipo de mineração, invariavelmente ilegal, que expõe à contaminação comunidades tradicionais que dependem dos recursos naturais para sua sobrevivência, afetando adversamente a saúde das comunidades ribeirinhas e particularmente os indígenas.

Na Amazônia brasileira, povos indígenas, comunidades ribeirinhas, pescadores, quilombolas, camponeses e extrativistas habitam áreas próximas a rios, baías e igarapés – portanto, são altamente expostos a compostos que contêm mercúrio.

Essa realidade é agravada pela vulnerabilidade social dessas comunidades, incluindo acesso reduzido aos cuidados de saúde, educação formal, renda regular, saneamento básico e água potável. Além disso, essas comunidades sofrem com altas taxas de desnutrição, principalmente em crianças menores de 5 anos.  O estudo indicou ainda que maior risco de contaminação por mercúrio foi observado em crianças na zona interior. 

Foto: Ibama

“Esses resultados são especialmente preocupantes para os povos indígenas e demais comunidades tradicionais da região, que tem o peixe como praticamente sua única fonte de proteína por grande parte do ano. Essas comunidades consomem peixes, muitas vezes, em todas as refeições o que aumenta consideravelmente a exposição a esse contaminante”, explica Para Yokota, coordenador Executivo Adjunto do Iepé.

“Além das degradação ambiental e contaminação por mercúrio, os garimpos também trazer para perto das comunidades tráfico de drogas, armas, prostituição e ameaças a lideranças. Durante a quarentena, as comunidades estão especialmente preocupadas com o inchaço dos garimpos, resultado da crise econômica pois se tornam um vetor de contaminação pelo vírus nas aldeias, mesmo nos lugares mais isolados”, completa Décio.

Solo, erosão e queimadas

Outro fator que pode influenciar significativamente os níveis de mercúrio nos ecossistemas aquáticos da Amazônia é a erosão, que mobiliza o mercúrio acumulado nos solos.

Consequentemente, os esforços para reduzir a exposição ao mercúrio também devem abordar a erosão do solo, com um foco particular em rios e igarapés vulneráveis ​​nas florestas ripárias.

Foto: Bruno Kelly | Amazônia Real

Além disso, as mudanças na cobertura e uso da terra levam a frequentes incêndios florestais, que liberam grandes quantidades de mercúrio na atmosfera e nos sistemas aquáticos. Essas questões requerem vontade política para implementar políticas eficazes para reduzir os fatores de desmatamento na Amazônia.

Sobre o estudo

O estudo, que teve como objetivo avaliar os potenciais riscos toxicológicos à saúde causados ​​pelo consumo de peixes contaminados por mercúrio, foi realizado em cinco regiões do Estado do Amapá, incluindo algumas das bacias hidrográficas mais biodiversas e economicamente significativas da região, sempre em áreas protegidas e conservadas, incluindo a maior reserva natural do Brasil (Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque).

Foram escolhidos rios que faziam fronteira com áreas protegidas devido à maior ocorrência de depósitos minerais e maior número de locais de ASGM.

Esses locais foram identificados com base em mapas de desmatamento de mineração de ouro, revisões de literatura, presença de comunidades locais, influência de marés costeiras ou águas interiores, logística de amostragem, distância a áreas protegidas e entrevistas com gerentes de áreas protegidas e locais com conhecimento da história regional da mineração de ouro.

Foram amostrados 428 peixes de 18 locais nos sistemas aquáticos terrestres e costeiros entre agosto de 2017 e maio de 2018. Os peixes foram capturados por pescadores locais contratados para apoiar o projeto de pesquisa. De acordo com os pescadores locais, cada espécie de peixe foi capturada usando equipamentos específicos.

Cada amostra foi identificada ao nível da espécie e um mínimo de 70 g de tecido muscular (livre de pele) foi extraído da região dorsal do corpo do peixe. Todas as ferramentas de dissecção foram esterilizadas antes da amostragem para evitar contaminação. As amostras foram armazenadas em caixas de gelo e congeladas para transporte ao laboratório. O estudo foi realizado de acordo com a regulamentação brasileira (IN 03/2014), sob a licença SISBIO 58296-1.

Por Ciclovivo

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